domingo, 4 de maio de 2008

Artigo de jornalista convidada: Bruna Bonafé

Progresso?

Até meados nos anos 70 a principal atividade econômica de Macaé, município situado ao norte do Rio de Janeiro, era a pesca. Trinta anos depois da descoberta do petróleo na região, e com o número de habitantes triplicado, a antiga cidade pesqueira começa a descobrir que todo desenvolvimento tem um preço.

A instalação da Petrobrás e de sua sede de operações da Bacia de Campos mudou o cenário de Macaé. A Bacia de Campos produz 80% do petróleo nacional, importância que mudou também a vida de seus moradores. A pacata cidade, hoje, parece um canteiro de obras, novos bairros, prédios e mais prédios, hotéis e crescimento do terceiro setor, o de serviços. Mas se engana quem pensa que a cidade é só isso. Por trás dos prédios, as favelas, os conjuntos habitacionais, os bairros da periferia. O petróleo que gera emprego mexe com a ambição e a vontade de vencer, de viver melhor. Impulsionadas por sonhos e por histórias que deram certo, pessoas de diversas regiões do país vão a Macaé, o Eldorado fluminense em busca de trabalho. Mas chegar lá não é garantia de sucesso, não para todos.

O número de empregados com carteira assinada em Macaé cresce a cada ano, na mesma proporção que a exigência de qualificação profissional. O aumento da quantidade de unidades de perfuração só dá oportunidade para mão de obra altamente qualificada, o que não condiz com a realidade nacional e regional. Bom lembrar que parte dos trabalhadores que abocanham os ganhos gerados pela exploração do petróleo é formada por estrangeiros, já que as plataformas contam com equipes de especialistas de outros países.

Uma das maiores rendas per capita do país convive nada pacificamente com a proeza de liderar a violência no estado do Rio de Janeiro. Estatísticas são apenas números quando não interpretadas. O expressivo crescimento do PIB nos últimos anos e o bom momento do turismo e dos negócios, por exemplo, não são tão positivos quanto parecem. Esses números não atingem a população por inteiro, mas sim algumas de suas parcelas. O lucro trazido por esses setores é aplicado com o intuito de gerar mais investimentos para gerar mais lucros. Como um ciclo. A rede hoteleira é incrementada, a infra-estrutura para o turismo é aumentada, aeroportos ampliados. Mas os serviços básicos que deveriam atender a população em geral continuam estagnados. Ironicamente o PAC (Programa de Aceleração de Crescimento), do Governo Federal, prioriza investimentos, que podem ser chamadas de medidas paliativas, na área de segurança em Macaé, em vez de interferências urgentes na educação e no social, raízes do problema da violência urbana.

É inegável o fato de que muitas pessoas se beneficiaram do crescimento de Macaé. Mas a que custo? O crescimento trouxe modernização e visibilidade internacional à cidade, investimentos, infra-estrutura e riqueza. Por outro lado, a falta de planejamento acarretou em violência, especulação imobiliária, alta de preços em geral, desigualdade, desemprego, segregação social e todas as suas conseqüências. O crescimento do litoral norte do Rio não foi, definitivamente, sinônimo de desenvolvimento. O sistema excludente do qual todos fazemos parte, aliado ao crescimento rápido e desordenado, sem o subsídio de políticas públicas de base deixaram parcela significativa de seus habitantes, novos ou velhos, de fora da arrancada da cidade. O equilíbrio socioeconômico é tão frágil quanto o equilíbrio ambiental dos mananciais de Macaé.

Difícil falar sobre problemas sociais sem sair do senso comum. “Carência de educação” e “desemprego e crise social” podem parecer velhas teorias caducas ou argumentos fracos, mas infelizmente não são. São temas que nos acompanham há séculos e estão tão presentes em nossa sociedade que parecem não mais incomodar. Ficamos insensíveis a eles. Talvez por isso, para os governantes e investidores de Macaé seja mais pertinente falar e se gabar sobre o “boom” do turismo na cidade do que tocar em assuntos como o das milícias formadas por seus jovens, vítimas de anos de dolorosa negligência e esquecimento.

Bruna Bonafé.

28/04/2008.

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